quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Campo Pequeno, drama em directo

Fez-se um silêncio sepulcral no Campo Pequeno.
Após dedicar a sua primeira pega em pontas à Barrica, Marto caminhou lentamente sobre o chão arenoso da praça até chegar a meio caminho entre a barreira e o centro da arena.
Confirmou a correcta localização do primeiro-ajuda e enfiou o barrete até às orelhas.
Ao longe, o touro ainda não dera conta da sua presença. Arfava e contemplava os camarotes com as pontas dos cornos brilhantes e bem afiadas, reluzindo ao sol e uma abudante baba a escorrer aos cantos da boca.
Nos céus, começou-se então a ouvir o ruído distante mas crescente de um hélicópetro do INEM que descolara de Santa Maria com uma equipa de reanimação completa a bordo.
A TVI e a SIC entraram em directo nesse instante, interrompendo a programação habitual. Pela primeira vez desde há anos a tourada voltava a ter protagonismo na TV, muito à custa da perspectiva de muito sangue, tripas dilaceradas e da emoção única que era uma morte em directo no ecrã.
Eh toiro! - berrou o Maioral de mãos na cintura.
O animal virou-se lentamente de olhos esbugalhados e avançou o quarto dianteiro esquerdo, enquanto o casco direito raspava nervosamente no solo.
Na bancada, diversas admiradoras de Marto, banhadas em lágrimas, começaram a rezar uma Salve-rainha em surdina.
E o Touro arrancou com toda a potência em direcção ao Maioral.
Agora, só um milagre o salvaria...

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